Sábado, 2 de Julho de 2011

O que você precisa é que a mãe lhe dê educação

Nunca percebi a teoria que defende que quem tem um canudo tem obrigatoriamente que ganhar mais do que quem não o tem. Por isso não entendo a histeria deste texto. Suspeito até que o escritor deve ser um daqueles Drs. muito colados ao título para esconder uma estupidez genética que vários cursos superiores não conseguirão nunca apagar. Aliás, basta ler o texto para ver a estupidez a saltar por todos os cantos das letras. Se os revisores da CP ganham mais de 30.000€ anuais e se ganham mais do que os médicos em início de carreira, então suba-se o salário dos médicos em início de carreira, não entendo porque se deve ficar aos gritos pela casa fora e nas páginas dos jornais a dizer que estes safados dos revisores ganham um balúrdio e que têm de ser cortados nos salários, proibidos de ter um sindicato e do direito à greve. Sim, porque pelos vistos esta questão dos direitos adquiridos é uma coisa assim leviana e deviam era todos pedir para receber o salário mínimo porque isso é que é justo. Por mim, até se podia cortar a liberdade de expressão a gente deste género, para não gastarem papel com estupidezes, mas se calhar se isso acontecer ele já vai reclamar os seus direitos adquiridos.

Além disso, gosto da forma como ele simplifica e até ridiculariza a tarefa do revisor da CP. Presumo que este indivíduo tenha um local de trabalho fixo, um escritório, daqueles com ar condicionado, com colegas de trabalho que conhece, onde pode ver o seu computador, mandar uns bitaites e escrever porcaria pela qual é pago. Presumo também que não ande de comboio, ou se anda anda nos Alfa, realidade bem distinta da vivida dos suburbanos. É que eu ando quase diariamente de comboio, e até uso uma linha relativamente segura, mas já vi várias vezes revisores (aqueles gajos estúpido cuja única tarefa é picar bilhetes) a serem insultados, quase agredidos, a verem gente muito esperta a atirar-lhes com o dinheiro à cara ou ao chão para eles terem de andar a apanhar as moedas, pessoas que fazem de conta que eles são invisíveis e se recusam a sair dos comboios mesmo viajando sem bilhete por mais que o revisor insista que tenham de sair, e já vi situações tão horríveis que valem por si só os 30.000€ anuais. E muitas delas pareciam-me ser provocadas por pessoas que até deveriam ter mais estudos do que os ditos revisores.

Infelizmente, o problema de Portugal reside também neste tipo de gente, que sem inteligência, decência e o mínimo de consciência, consegue tirar cursos superiores (coisa que não é nada difícil, diga-se de passagem, olhando para a capacidade mental de muitos colegas de carteira), e acha que por isso tem direito a ser superior tanto monetária como socialmente a pessoas que realizam profissões que não precisam de canudos, desvalorizando o trabalho de quem certamente até se desgasta mais física e mentalmente diariamente. Se calhar o que faz falta a este Henrique Raposo é um mês a fazer de revisor na linha de Oeiras, por 485€.

10 comentários:

Leonardo Xavier disse...

Questão complicada, essa de medir salários... todos sempre acham que sua função é mais importante que a alheia e que por isso mereciam maiores salários...

Street Fighting Man disse...

independentemente de receberem muito bem ou não, este tipo de discurso de "o meu canudo é maior que o teu" é sempre desprezível. se calhar se o pusessem a trabalhar como pica ia exigir auferir rendimentos anuais acima dos 30.000 que tanto o acossam

Daniela disse...

A forma como ele despreza a função do revisor, quase que nos indica que o trabalho podia ser feito por macaco treinados para picar bilhetes. Enfim. Claramente uma crónica para competir com o outro da classe média e o vinho francês.

Joana Banana disse...

dois apontamentos:

1) se calhar, essa pessoa com elevados níveis de educação, até gostava de um free-ridingzinho. afinal, vai-se a ver e são os que mais gostam de qualquer forma de lucro, ainda que não seja um ganho propriamente dito.

2)o Armando Vara tem a 4.ª classe.

HG disse...

Daniela, podes não concordar com o Henrique Raposo (e se vivessemos num mundo ideal e cor-de-rosa eu também discordaria com ele), mas não vejo o que esse texto tem de tão estúpido assim. Nem vejo onde ele diz que devem ser probidos os sindicatos e o direito à greve, ou existe aí um limite à liberdade de crítica? O texto pode ser redutor, tendencioso, demagógico até, admito. Mas tem o seu fundamento. A questão essencial aqui não passa apenas por comparar o que um revisor ganha relativamente a muitos licenciados, mas principalmente a denúncia - pegando num mero exemplo - da desproporção em termos salariais e de regalias comparados com tantos outros trabalhadores (licenciados ou não), no âmbito de uma empresa pública que dá um prejuízo brutal e que é alimentada pelos nossos impostos, cada vez mais sufocantes. Seria óptimo que os revisores ganhassem 30.000€ ou mais por ano se a CP fosse uma empresa pública próspera e a nossa economia estivesse numa dinâmica brutal. A verdade é que chegámos a um ponto em que não se pode subir, assim sem mais, os salários dos médicos em início de carreira (e tantos outros jovens profissionais) como defendes, porque por entre má gestão pública e decisões ruinosas, também não se teve pejo, no tempo das vacas gordas e por pressão dos sindicatos, em criar direitos adquiridos tão importantes como receber mais 6 euros por dia por vir trabalhar... O que sendo uma obrigação contratual, é algo escusado, não?
Concordo que ele ridiculariza o trabalho de um revisor, que não será assim tão simples como parece, mas vê, por exemplo, os casos dos polícias que correm, sem dúvida, riscos bem maiores, mas não têm os mesmo nível salarial. E porquê? Porque até há pouco tempo não tinham associações sindicais. Achas justo este desequilíbrio ou também vais dizer que agora nesta fase de crise financeira devemos aumentar todos os polícias para níveis similares ou superiores?

Anónimo disse...

a daniela vai criar uma empresa que os seus trabalhadores ganham mais do que a facturação anual da empresa.

Anónimo disse...

quero ir trabalhar para a daniela

Anónimo disse...

Reconheço (e critico) alguma propotência no texto do senhor mas não lhe tiro a razão. Também eu ando todos os dias em comboios suburbanos e regionais e sinceramente continuo a achar o salário excessivo. Concordo contigo que até enfrentem situações nada fáceis no dia-a-dia, mas isso existem em todas as profissões. Até os professores hoje em dia se apanham com um aluno menos disciplinado (e educado) estão sujeitos. A situação dos policias é bem mais grave. Não é essa a razão para auferirem esse salario. Mais grave do que isso é mesmo o quanto um maquinista da CP aufere. 3.000€ mensais neste pais isso sim é excessivo.

estrela do ar disse...

Pelo que tu vês nos comboios suburbanos, devia passar a ser requisito para ser revisor da CP que tivessem corpo e formação de segurança, para fazerem valer a sua autoridade. Aí até podiam ganhar dois salários mínimos.

Daniela disse...

Por acaso, até fazia sentido circularem polícias nos comboios. Não entendo o critério de alguns comboios circularem com polícias e outros não.
Mas há alguma empresa de comboios no mundo que dê lucro? Só a título de curiosidade...
Fico muito contente por perceber que começo a angariar votos nos anónimos deste país.
Quanto aos polícias... Acho que eles ficavam mais contentes por terem meios para trabalho, do que em serem subidos nos salários. Há condições verdadeiramente patéticas em algumas esquadras e há casos de polícias que têm medo de sair à rua. Agora, o sindicato da CP não pode ser responsável pelo facto de o sindicato dos polícias não ser reivindicativo :O
Sinceramente, continuo a achar que os funcionários da CP se tornaram nos alvos fáceis no meio da crise, de ataque a funcionários públicos. Ninguém fala de funcionários em excesso nas repartições de finanças e juntas deste país que ganham mais do que estes "picas" e que estão o dia sentados a jogar pc sem fazer nada de nadinha de nada. Se começassem a cortar por quem não está efectivamente a trabalhar ao invés de cortarem a quem até faz trabalho no dia-a-dia, podia ser produtivo para todos nós.
E mais importante, presumo que depois de lerem o texto, não ficaram todos com vontade de ser picas, ao contrário da ideia parva que o autor do texto tenta passar.