Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

Dos turistas

A cidade do Porto, encontra-se num meio termo entre a reabilitação e a degradação, típica de uma cidade que durante anos viveu esquecida (tal como muitas outras cidades e zonas de Portugal) por parte das verbas e dos investimentos do poder central (se é que ainda não vive). Os subúrbios expandiram-se desenfreadamente com prédios todos diferentes uns dos outros, ocupando zonas que anteriormente seriam de floresta e trouxeram imensa população do centro para os prédios e moradias bem mais baratos que do centro. O centro ficou cheio de casas devolutas ou casas ocupadas por pessoas pobres que aproveitam as rendas baixas de que beneficiam há largos anos, não tendo de se preocupar com as obras das fachadas e mesmo do interior dos edifícios. Só que, sucedendo-se uma capital europeia da cultura e tornando-se o aeroporto de Sá Carneiro bastião da Ryanair, com um afluente de turistas súbito e cada vez maior à cidade, as coisas começaram a mudar. Também aqui se destaca o papel importante da Universidade do Porto que atrai cada vez mais estudantes estrangeiros para a cidade. Ora, o centro passou a ter de ser habitado e iniciaram-se os programas de reabilitação urbana que são lentos. As partes principais da cidade começaram a ganhar vida, toda a gente pensou nos jovens como tendo potencial de ir habitar o centro da cidade, os monumentos ganharam uma outra cor, bem como a noite na cidade que antes era temerosa e totalmente não aconselhada, com as ruas totalmente vazias. O problema é que se começam a acumular as casas reabilitadas com sinais a dizer “vende-se” nas janelas: porque os jovens, esses destinatários das casas na baixa da cidade, não têm dinheiro para pagar os preços exorbitantes que pedem por elas. Compensa bem mais continuar a habitar nos subúrbios.

Adiante.

Entre os recantos (os muitos recantos) que se encontram ainda devolutos, existem alguns que constam dos roteiros turísticos. Um deles é o Miradouro da Vitória, que fica ao fundo da rua do Mosteiro de São Bento da Vitória, atrás da antiga Cadeia da Relação do Porto (actual Centro Português de Fotografia). Ora o miradouro é um pedaço de terra cheio de lixo e totalmente abandonado, sendo o suposto jardim de um edifício completamente devoluto que serve de pano de fundo do mesmo e que torna o local decadente. Do miradouro a primeira imagem é lindíssima: a cidade, o rio, consegue ver-se alguns dos monumentos mais importantes (desde a Sé Catedral às copulas do Palácio da Bolsa), bem como os barcos rebelos que se passeiam no Douro. Um olhar mais atento mostra a cidade no seu estado bruto: casas a cair de velhas e podres, vazias, provavelmente pousio dos muito toxicodependentes que se passeiam pelas ruas. Ora, perante o avultado número de turistas que por lá vagueava, começamos a questionar-nos sobre o que eles pensariam daquilo, da cidade, o que sentiam ao olhar, se achavam bonito, feio, decadente. Aproximamo-nos assim de um casal e perguntamos a opinião deles. Ora, os turistas, pelo menos avaliar por aquela amostra, continuam a achar de facto a cidade lindíssima, mas comparam o seu estado de conservação a Havana. Não obstante reconhecerem como comum a várias cidades o fugir de população dos centros para os subúrbios, não compreendem como pode a cidade estar num estado totalmente esquecido e questionam-se como é possível o preço das casas ser tão alto no centro, quando o objectivo seria atrair pessoas para o habitarem.

Sendo o Centro Histórico do Porto considerado património da humanidade pela UNESCO e numa altura em que o país parece interessado em apostar no turismo (o que me parece que engloba mais do que prédios horrorosos na linha da costa e novas regiões do país como o All garve), é de estranhar que se continue a insistir num centralismo que suga dinheiros públicos e vota ao esquecimento zonas onde cada vez mais turistas passeiam, pelos vistos com a ideia de que estamos a um nível de desenvolvimento semelhante ao do Caribe.

4 comentários:

Txikia disse...

é verdade! encontrei esse miradouro por acaso aqui há uns tempos e estava decadente.
por outro lado, tenho ido à baixa nestes últimos dias e quase vejo mais estrangeiros do que portugueses.
a maior potencialidade do nosso país é o turismo, até porque somos hospitaleiros. aqui há uns anos, no norte do país, existia um programa de apoio à reabilitação de casas que depois serviam para turismo rural (eram fundos comunitários e o programa chamava-se adere-soajo). mas parece que agora foi-se tudo o que é apoio...

HG disse...

"Os subúrbios expandiram-se desenfreadamente com prédios todos diferentes uns dos outros, ocupando zonas que anteriormente seriam de floresta e trouxeram imensa população do centro para os prédios e moradias bem mais baratos que do centro. O centro ficou cheio de casas devolutas ou casas ocupadas por pessoas pobres que aproveitam as rendas baixas de que beneficiam há largos anos, não tendo de se preocupar com as obras das fachadas e mesmo do interior dos edifícios."

Podia decalcar esta parte e aplicar a Lisboa. Estou a ver que a desculpa do centralismo serve para tudo.

Daniela disse...

A baixa de Lisboa está em muito melhor estado que a do Porto. Mas a parte da expansão dos subúrbios aplica-se a todas as cidades do mundo. Só por dizer que em Portugal se foi para os subúrbios quando nos outros sítios já se estava a voltar à cidade. As usual :p

Leonardo Xavier disse...

Aqui no Recife, acontece a mesma coisa com muitos prédios históricos antigos. E mesmo com alguns um pouco mais modernos das década de 50.

É lamentável ver o patrimônio cultural do seu povo tão abandonado.